janeiro 17, 2018

[Kindle] The Girl on the Train - Paula Hawkins

Título original: The Girl on The Train
Ano da edição original: 2015
Autor: Paula Hawkins
Editora: Riverhead Books

"Rachel catches the same commuter train every morning. She knows it will wait at the same signal each time, overlooking a row of back gardens. She's even started to feel like she knows the people who live in one of the houses. 'Jess and Jason', she calls them. Their life - as she sees it - is perfect. And then she sees something shocking..."

Depois de ter passado a febre que rondava A Rapariga no Comboio, achei que já tinha condições para o ler sem ser influenciada por tudo que se dizia sobre o livro. 

A Rapariga no Comboio é uma espécie de thriller psicológico bastante bem conseguido. 
Rachel é uma jovem mulher que nos é apresentada por todos à sua volta como alcoólica, emocionalmente desequilibrada, obcecada pelo ex-marido, mentirosa e violenta. No entanto, à medida que vamos conhecendo a história que a própria Rachel nos vai contando algo parece  não bater certo.
Rachel tem um problema com a bebida, não há dúvidas quanto à isso. Bebe até perder os sentidos e, quando recupera a consciência, pura e simplesmente não se lembra de nada do que aconteceu. Onde esteve, com quem e o que fez. Horas e horas da sua vida completamente apagadas da sua memória. O pior é que, nessas alturas o mais provável é que tenha regressado à sua antiga casa, onde agora o ex-marido vive com a atual família, a mulher e a filha. A atual mulher de Tom não a suporta e já fez queixa à policia. Tom parece tentar desculpar o comportamento de Rachel, tenta afastá-la mas ao mesmo tempo  parece continuar a preocupar-se com ela. 

Rachel está desempregada mas apanha apanha o comboio, todos os dias, como se fosse trabalhar. Todos os dias o comboio pára durante alguns segundos, às vezes minutos, num sinal, o que lhe permite observar as casas da rua onde morava. Há uma casa em particular que lhe desperta a atenção. Nela, todos os dia, ela observa um jovem casal, cuja vida ela de certa forma inveja. São jovens, bonitos e parecem apaixonados. A vida que ela consegue vislumbrar do seu lugar à janela do comboio parece-lhe perfeita. Não os conhece e por isso baptizou-os. Para ela são a Jess e o Jason e são tudo aquilo que desejou para ela e para Tom e que Anna conseguiu roubar. 
Rachel é uma mulher profundamente triste, sozinha e confusa. Vive entre a vontade de prosseguir com a sua vida e o desejo doentio de se manter perto de Tom.
Um dia, depois de mais uma noite complicada, ouve nas notícias que Jess está desaparecida. Rachel não faz ideia do que aconteceu, mas na noite anterior, a última lembrança que tem é de ter saído na estação de Witney, a estação que a leva à rua da qual parece não conseguir afastar-se. Ela não se lembra de nada, mas tem um mau pressentimento sobre aquele fim de tarde. Acha que não está a conseguir lembrar-se de algo muito importante. 
O que será que incomoda tanto Rachel? Porque é que tudo o que lhe dizem que ela faz quando está alcoolizada lhe parece tão desfasado do que ela sente? Rachel tem dificuldade em reconhecer-se naquela pessoa. A confusão é tanta, as perdas de memória de tal maneira graves que já nem Rachel sabe quem é.

Paula Hawkins conta-nos uma história onde nem tudo o que parece é. Gostei da escrita dela e da forma como nos vai envolvendo na história de Rachel. A confusão e a tristeza desta mulher são quase palpáveis. Mesmo com tudo o que se dizia dela, não deixamos de criar empatia com ela e queria muito que tudo lhe corresse bem.

Gostei bastante. Acho que Paula Hawkins é bem capaz de entrar para a minha lista de escritores a seguir. :) 

Recomendo sem qualquer hesitação e sem qualquer restrição. 

Boas leituras! 

Excerto:
"Something happened, I know it did. I can't picture it, but I can feel it. The inside of my mouth hurts, as though I've bitten my cheek, there's a metallic tang of blood on my tongue. I feel nauseated, dizzy. I run my hands through my hair, over my scalp. I flinch. There's a lump, painful and tender, on the right side of my head. My hair is matted with blood."

janeiro 03, 2018

O Luto de Elias Gro - João Tordo

Título original: O Luto de Elias Gro
Ano da edição original: 2015
Autor: João Tordo
Editora: Companhia das Letras

"Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbért, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios na local que escolheu para se isolar: um farol abandonado; à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passa a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.
O Luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso."

O Luto de Elias Gro é o primeiro livro da "trilogia dos lugares sem nome". O primeiro lugar sem nome é uma pequena ilha no meio do Atlântico onde todos os seus habitantes são de certa forma peculiares. Alguns nasceram na ilha e nela viveram toda a sua vida, outros foram lá parar depois de algum acontecimento trágico nas suas vidas e por lá ficaram, lá viveram e morreram.

O narrador, personagem sem nome, desta história é um dos que foi para a ilha à procura do natural isolamento que um farol desactivado lhe poderia trazer. Procurava um sítio onde não tivesse de falar com outras pessoas, onde ninguém o conhecesse e onde ninguém estivesse interessado em conhecê-lo. Queria liberdade para poder afogar todas as suas mágoas e enfrentar todos os seus demónios sem ser julgado.
No entanto, nem todos os habitantes da ilha estão interessados em respeitar a vontade do novo inquilino do farol. O padre, que não é padre, Elias Gro, faz os possíveis para que ele se sinta acolhido, obrigando-o a participar na vida da pequena comunidade.
É desta forma que conhece Cecília, a filha de Elias Gro. Cecília é uma menina de onze anos, muito perspicaz e inteligente, que cresceu muito sozinha na ilha, sem mais crianças para brincar, embora frequente a escola no continente. É uma miúda sedenta de atenção e parece encarar o mau humor do nosso narrador, que chega a ser ofensivo e violento com a pequena Cecília, como um desafio. Percebemos logo que ele gosta muito da miúda, que a acha peculiar no bom sentido e divertida. A presença de Cecília faz-lhe bem, mas também lhe traz lembranças do seu passado com as quais ainda não consegue lidar.
Ao longo do livro vamos acompanhando o processo de luto do narrador. Vamos conhecendo o que o levou a procurar isolar-se do mundo, num farol perdido numa ilha perdida no meio do Atlântico. Descobrimos um homem que perdeu tudo e que não sabe lidar com isso. Refugia-se na bebida e torna-se uma pessoa desprezível. Quer afastar de si toda e qualquer manifestação de bondade, não se sente merecedor da compaixão dos outros. Quanto mais os habitantes da ilha o tentam incluir,  mais ele os afasta. A única pessoa que parece conseguir, de alguma forma, criar brechas na barreira protectora que criou à sua volta, é Cecília.

Todos naquela ilha têm problemas, todos eles conhecem a perda e vivem com ela e, todos têm diferentes maneiras de fazer o luto. Todos eles encontraram formas de continuar a viver depois da morte. O nosso narrador também vai acabar por sair do buraco escuro e fundo para onde foi quando a vida lhe pregou uma partida. A viagem não será fácil e levará algum tempo até que ele consiga ver para além da sua própria dor.

Já há algum tempo que não lia João Tordo e confesso que me estava a fazer alguma falta. :)
O Luto de Elias Gro é de certa forma diferente do que tenho lido do João Tordo. Os anteriores estavam envoltos em mistério, em segredos por desvendar. Este é definitivamente mais introspectivo. Procura provocar em quem lê, alguma da dor, raiva, tristeza, angústia e impotência que o narrador sente nos diversos estágios do seu luto.
Embora pareça e, de certa forma, seja um livro pesado, está escrito com algum sentido de humor que aligeira um pouco a atmosfera mais negra da história.

Resumindo e baralhando, gostei da história e das personagens e gosto sobretudo da forma como João Tordo nos conta esta história.

Só posso recomendar!

Boas leituras! :)



Excerto (pág.168):
"Eu respirava com dificuldade, alguma coisa parecia ter-se alojado na minha traqueia. A memória das vozes ao telefone e da vigília afrontava-me; dentro de mim, um animal ferido raspava ferozmente o chão de gravilha com unhas retrácteis, e uivava, procurando sair da toca.
Tenho pena é das lesmas, disse Cecília. E das lagartas. Não têm como se proteger.
As lagartas fartam-se de ser lagartas e fazem uma casinha nojenta de baba, disse eu. E depois transformam-se em borboletas, e toda  a gente gosta de borboletas. Nunca vi ninguém fazer mal a uma borboleta. Quando muito, espalmam-nas no meio das páginas de um livro, para sempre. É uma vida bestial. Muito melhor do que a nossa.
As lagartas esvaziam o estômago e segregam uma enzima que forma uma crisálida, disse Cecília, em tom de correcção.
És muito esperta, ripostei. Aposto que te dizem isso na escola. Lembras-te dessas coisas todas, nada te escapa, pois não?
A diferença é que nós, ao contrário das lagartas, somos muito mais como os cães. Vida de cão, é assim que se diz. Sabes porquê? Porque a nós ninguém nos dá nomes em latim nem nos espalma entre as páginas de um livro, para que a nossa beleza fique preservada para sempre. Não existe filatelia humana.
Lepidopterologia.
O quê?
Filatelia é coleccionar selos. Lepidopterologia é como se chama à ciência dos insectos.
E que tal coleccionar borboletas? Serve-te? Ou precisas de saber dezenas de palavras impronunciáveis das quais te irás esquecer assim que começares a crescer?
Cecília desviou o olhar para a janela. Parecia magoada. Irado, eu escutava o meu próprio tom de voz, a roçar a violência, e percebi que estava fora de mim. Aquela versão chegara com a força e imprevisibilidade das tempestades: quanto mais olhava para a rapariga, mais desejava anulá-la. (...) Olhava para Cecília e via uma outra, que não era Cecília, alguém de que ainda não vos falei (porque não consigo, não sou capaz); alguém que não existe e, todavia, é a figura central destas páginas. O fantasma de Banquo sentado à mesa real."

novembro 23, 2017

[Kindle] Pássaros Feridos - Colleen McCullough

Título original: The Thorn Birds
Ano da edição original: 1977
Autor: Colleen McCullough
Tradução: Octávio Mendes Cajado
Editora: Bertrand Editora

"Um dos romances mais lidos e apreciados de todos os tempos, Pássaros Feridos é uma saga de sonhos, paixões negras e amores proibidos. Passada na Austrália, percorre três gerações de um indomável clã de rancheiros cujas vidas vão ganhando contornos numa terra dura mas de grande beleza ao mesmo tempo que vão lidando com a amargura, a fragilidade e os segredos da sua família. Uma apaixonante história de amor, um intenso épico de luta e sacrifício, uma celebração da individualidade e do espírito. É sobretudo a história de Meggie e do padre Ralph de Bricassart - e da intensa ligação de dois corações e duas almas ao longo de uma vida inteira, numa relação que ultrapassa perigosamente as fronteiras sagradas da ética e do dogma."

Pássaros Feridos é um daqueles livros seguem a história de uma família, os Cleary, quase desde o seu nascimento até à morte.
A história começa na Nova Zelândia, com os Cleary, uma família de tosquiadores de carneiros. Paddy e Fee são casados e têm 6 filhos. Meggie é a única menina na família Cleary. Era uma criança curiosa, inteligente e muito bonita, com a cabeça cheia de canudos dourados como o sol. 
Não se pense, no entanto que, por ser bonita e a única menina da família era tratada de maneira muito diferente. Era castigada como os irmãos, principalmente pela mãe, que a tratava de forma mais rude por ser uma menina. As duas tinham uma relação tensa e com muito poucas demonstrações de amor. O pai tinha-lhe um carinho especial e o irmão mais velho, Frank protegia-a, sempre que possível, de todos os contratempos.

Quando a irmã de Paddy, Mary Carson, milionária, viúva e doente, lhe pede que venha com a família viver para junto dela e ajudá-la a cuidar de Drogheda, a fazenda que promete, será deles quando morrer, os Cleary não têm como recusar e mudam-se de malas e bagagens para a Austrália. E aqui começa um novo capítulo na vida desta família.
Drogheda são quilómetros e quilómetros de terra onde Mary é dona de milhares e milhares de carneiros. A fazenda situa-se numa zona inóspita da Austrália, onde a natureza é inclemente, com períodos de seca extrema seguidos de verdadeiros dilúvios. A família, principalmente Meggie e a mãe, sentem alguma dificuldade em ambientar-se ao clima, à humidade, aos insectos e ao pó que parece não ter fim. Estranham o isolamento.
A única visita regular da casa grande é Ralph de Bricassart, o jovem, ambicioso e sedutor padre de Gillanbone, a cidade mais próxima de Drogheda.
Ralph de Bricassart é a primeira pessoa que os Cleary conhecem quando chegam. É ele que os vai receber à estação de comboio de Gillanbone e os leva até à fazenda de Mary Carson.
Dono de uma beleza e carisma irresistíveis, cativa todos com o seu à vontade e disponibilidade.
Simpatiza de imediato com todos os Cleary, mas desenvolve um carinho especial pela surpreendente Meggie, na altura com nove anos. Fascinado com ela desde a primeira vez que a viu, passa a ser o seu melhor, e único, amigo, e o seu mais fervoroso protector.

O tempo passa, a família cresce, uns nascem outros morrem, e a vida continua em Drogheda.
Meggie cresce e torna-se numa mulher encantadora, cobiçada pelos jovens das fazendas vizinhas. Meggie cresceu isolada, sem contacto com outras meninas da sua idade e a mãe não perdeu tempo a prepará-la para a vida adulta. E é por isso que, na cabeça dela, tudo é mais simples do que na vida real. Apaixonada pelo padre Ralph, sabendo-se correspondida, não percebe porque não podem ser felizes os dois. Ralph de Bricassart, vive atormentado, dividido entre a sua vocação e ambições pessoais e o que sente, de forma muito intensa pela sua doce Meggie.

A personagem da Meggie, as suas escolhas, os seus dramas e as suas alegrias, vão servir de motor para o desenvolver da história. Não sei se vale a pena entrar em mais pormenores sobre a vida dela e sobre o que o futuro lhe reservou.

Pássaros Feridos permite-nos conhecer um bocadinho da Austrália, um país imenso, dono de uma natureza dura e implacável, que tornou todos os seus habitantes pessoas mais ou menos rudes, com uma capacidade de resistir às adversidades acima da média. Uma terra bonita, que se entranha nos ossos de cada uma das personagens, que os prende e os define. Não querem, ou não conseguem, viver noutro lado.
Fala também de religião e do impacto que pode ter na vida das pessoas e do mundo. Uma religião feita por homens, que arrasta, por isso, todos os defeitos que nos são, de certa forma, inatos.
Fala de amor, de família, do papel da mulher na sociedade e da importância da educação.
Fala de muitas outras coisas, é um livro grande, havendo espaço para tudo.

Posto isto, não tenho a certeza de ter gostado muito deste livro ou da forma como é contada a história. Não consigo explicar, mas nota-se que é um livro de época, que aborda os temas de forma mais tradicional. Não sei se me fiz entender.
Gostei da história até Meggie se tornar uma jovem adulta, com 16, 17 anos. A seguir todo o livro me pareceu um romance de cordel, de amores proibidos. A história voltou a agarrar-me na fase adulta de Meggie, casada, mulheres independente e cheia de convicções. O interesse voltou a esmorecer na fase adulta dos filhos de Meggie, por ter voltado a sentir que a história era um pouco tonta... Talvez tenha tido alguma dificuldade em identificar-me com as personagens, não sei.

Resumindo e baralhando, não foi a minha leitura do ano, mas é um livro que tem muitas coisas boas que julgo, compensam as que, para mim, foram mais enfadonhas. Gostei especialmente dos cenários e de me permitir conhecer um bocadinho da Austrália.
Por isso, e embora não tenha ficado fã da escrita e não me tenha sentido suficientemente arrebatada para que Colleen McCullough entre para a minha lista de escritoras a descobrir, acho que posso recomendar a leitura de Pássaros Feridos. Não é tempo perdido.

Boas leituras! :)

Excerto
"As palavras foram ditas num tom mais objetivo do que consolador. Meggie fez que sim com a cabeça, sorrindo com insegurança; às vezes, sentia uma grande vontade de ouvir a mãe rir, mas ela nunca o fazia. Pressentia que ambas compartilhavam de algo especial, não comum ao pai nem aos rapazes, mas não não conseguia chegar além daquelas costas rígidas, daqueles pés que nunca paravam.
A mãe acabou por concordar com um gesto ausente de cabeça e, com sacudidelas bruscas e hábeis, volteou as saias volumosas entre o fogão e a mesa, sempre a trabalhar, trabalhar, trabalhar."

As Aventuras de Ngunga - Pepetela

Título original: As Aventuras de Ngunga
Ano da edição original: 1972
Autor: Pepetela
Editora: Publicações Dom Quixote

"Escrito em 1972, numa época em que Angola vivia sob o jugo colonial, esta é a história de um jovem guerrilheiro do MPLA, de caráter determinado e reto, que se faz homem aprendendo a pensar pela própria cabeça. Uma história pungente é terna que não deixará nenhum leitor indiferente."


No dia em que Pepetela me desiludir vou ficar perdida.

Este é mais um pequeno grande livro de Pepetela que se lê num instante e nos enche o coração de angústias mas também de esperança no Homem e nas nossas capacidades.
Numa Angola em plena guerra com Portugal, Ngunga é um jovem guerrilheiro do MPLA. Ngunga é orfão,  como muitos naquela época. É querido por todos e é reconhecido pela rectidão, pela honestidade e pela boa-vontade. Não se limita a obedecer e questiona o que se passa à sua volta, sem ter medo da resposta.
As Aventuras de Ngunga é uma espécie de conto que se foca em temas como a importância da educação e da necessidade de todos questionarmos a verdade instituída. A importância do espírito crítico e de pensarmos pela nossa cabeça e não pela cabeça da pessoa com a patente mais elevada. Não devemos nunca perder a vontade de mudar o mundo, mesmo que seja apenas o mundo na nossa "aldeia".

Gostei muito como já seria de esperar e, naturalmente que recomendo.

Boas leituras!

Excerto:

(pág. 102)
"Oh, este Mundo está todo errado! Nunca se pode fazer o que se quer!
- Hei de lutar para acabar com a compra das mulheres - gritou Ngunga, raivoso. - Não são bois!
- Para isso precisas de estudar. Eu não sei sobre o alambamento. Se se faz, os meus avós ensinaram-me isso. Mas, se achas que está mal e que é preciso acabar com ele, então deves estudar. Como aceitarão o que dizes, se fores um ignorante como nós?"

(pág. 110)
"Talvez Ngunga tivesse um poder e esteja agora em todos nós, nós os que recusamos viver no arame farpado, nós os que recusamos o mundo dos patrões e dos criados, nós os que queremos o mel para todos.
Se Ngunga está em todos nós, que esperamos então para o fazer crescer?
Como as árvores, como o massango e o milho, ele crescerá dentro de nós se o regarmos. Não consigo água do rio, mas com ações. Não com água do rio, mas com a que Uassamba em sonhos oferecia a Ngunga: a ternura."

outubro 08, 2017

Os Livros Que Devoraram o Meu Pai - A Estranha e Mágica História de Vivaldo Bonfim - Afonso Cruz

Título original: Os Livros Que Devoraram o Meu Pai - A Estranha e Mágica História de Vivaldo Bonfim
Ano da edição original: 2010
Autor: Afonso Cruz
Editora: Editorial Caminho

"Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo. Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras."

Um livro pequeno mas cheio de grandeza. Um livro que parece ser para os mais pequenos mas que agarra os mais crescidos.

Os Livros que Devoraram o Meu Pai é um livro que se lê numa tarde, no meu caso, de praia. É um livro que me deixou de sorriso no rosto, talvez porque me lembra a infância de cabeça enfiada nos livros, muitas vezes sem me aperceber que estava escuro lá fora e que já mal conseguia vislumbrar as letras nas páginas.
Desenganem-se, no entanto, porque este não é um livro alegre, de todo. É um livro desconcertante mascarado de livro para pequenos leitores.

Fala da confusão que é a adolescência e a luta diária que é procurar o nosso lugar no mundo. Um sítio onde sejamos reconhecidos e amados pelo que somos e nada mais. 
É um livro sobre o passado e as memórias e sobre aprender a viver com os nossos erros e as nossas culpas. Ninguém é só bom e ninguém é só mau. Todos temos áreas cinzentas com as quais lutamos, ou não, todos os dias.

E é isto. É isto e mais uma coisas, o que já é muita coisa para um livro com tão poucas páginas!

Recomendo sem qualquer hesitação. Gostei da escrita do Afonso Cruz.

Boas leituras! :)

Excerto (pág. 125)

"Tenho 72 anos. Reli está história que escrevi já depois de fazer treze anos e que relata, com rigor, aquilo que se passou na minha juventude. Cometi muitos erros ao longo da vida, e agora resta-me, tal como Raskolnikov, rever o meu passado e tentar compreendê-lo como um cego a apalpar um elefante e, quem sabe, perdoar-me e aprender a viver com esse Mr. Hyde que aluga um apartamento na nossa cabeça. Quando penso no Bombo, choro. Mas na altura é difícil saber fazer as coisas certas."

O Pecado de Porto Negro - Norberto Morais

Título original: O Pecado de Porto Negro
Ano de edição: 2014
Autor: Norberto Morais
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Conhecida entre os marinheiros do mundo como a Cidade do Amor Vadio, Porto Negro é um lugar remoto, plantado no coração dos trópicos que durante o dia, dizem, cheira ao suor dos homens e, à noite, ao perfume das mulheres da vida. Em Porto Negro vive Santiago Cardamomo, um jovem estivador que divide o tempo entre os bares do porto e a cama das mulheres, e também Ducélia Trajero, a filha donzela do açougueiro da terra, em quem o pai deposita todas as esperanças mas que sonha com Santiago desde o primeiro dia em que o viu. Só que em Porto Negro vive ainda Rolindo Face, o mesquinho empregado do açougue que jurou a si mesmo que a filha do patrão haveria de ser sua.
Amor, ódio, ciúme e vingança misturam-se numa trama que atravessa mais de meio século e envolve personagens tão distintas quanto uma antiga escrava que aguarda num palacete em ruínas o regresso do seu amo, um foragido da justiça, ou um mulato adamado que nas desertas horas da madrugada se perde pelo porto à procura de afecto."

Não sabia o que esperar deste livro. Tinha lido uma boa crítica, já não sei onde, e o nome ficou na lista de livros a comprar. 
Norberto Morais traz-nos uma história surpreendente com personagens inesperadas e foi, por isso, uma boa surpresa e um autor a manter debaixo de olho. 

Numa cidade costeira de um país da América do Sul, pelo menos assim parece, o calor torna os homens atrevidos e as mulheres disinibidas. Santiago Cardamomo é o solteiro mais cobiçado de Porto Negro. Não por ser rico, mas por ser especialmente habilidoso com as mulheres e o mais bonito de toda a cidade e arredores. :)
É um D. Juan e nenhuma mulher, nova ou velha, lhe consegue dizer que não. 

Ducélia Trajero é a única filha do dono do açougue de Porto Negro. É a menina dos olhos do pai, que a protege de todos o olhares para afastar os menos bem intencionados. Não muito bonita nem muito feia, Ducélia não chama a atenção, paira por Porto Negro sem virar muitas cabeças. É uma miúda tímida, dedicada ao pai, sem nada que a destaque da multidão. 
Vive perto de Santiago, que nunca olhou para ela duas vezes. Ela, no entanto, vive apaixonada por ele, desde que o viu pela primeira vez. Sabe que não é correspondida, e na sua inocência acha que o seu sentimento lhe basta para ser feliz. 

Todos os dias ao fim do dia, quando os trabalhadores do Porto regressam a casa, Ducélia vai varrer para a frente do açougue, de onde consegue ver Santiago chegar todos os dias. Todos os dias Santiago chega e nunca repara nela, até que, um dia, olha e repara. Um dia Santiago repara em Ducélia. E ao reparar nela, não pode deixá-la escapar. Nesse primeiro olhar não existe amor por parte de Santiago. E quando Santiago consegue o que quer, não tem qualquer intenção de continuar a ver Ducélia. Nunca se apaixonou por ninguém e não tem qualquer desejo disso. Ducélia, desiludida, sem perceber o que se passou, não volta a sair para varrer a frente do açougue e não procura mais Santiago. O silêncio de Ducélia começa a perturbar Santiago e quando dá por ela é ele que a procura, é ele que vai atrás dela. E quando dá por ela, está completamente apaixonado por Ducélia, pela ternura, pela paciência, pela compreensão, pelo seu silêncio e pelo amor que ela lhe dedica. 

Um amor assim, improvável, mas sincero e eterno, nunca pode correr bem nos livros. Este não é excepção. Ninguém sabe dos dois, o pai de Ducélia não pode sequer sonhar com o que se passa, é certo que matará Santiago, ou mesmo os dois.
Tudo poderia correr bem, não fosse a existência do ciúme. Rolindo Face é o empregado do açougue e é, desde que se lembra apaixonado pela filha do patrão. Prepara-se para pedi-la em casamento quando se apercebe de que se passa alguma coisa com a doce Ducélia e decide segui-la. O que vê deixa-o completamente louco. E louco de ciúme, por despeito, decide vingar-se dos dois. E é por causa de Rolindo que uma bonita história de amor, se torna num banho de sangue e vingança. 

Gostei muito da escrita de Norberto Morais e da forma como nos vai contando a história. 
Só não me agradou a forma como refere alguma coisa sobre alguma personagem e diz que se houver oportunidade nos conta. É claro que acaba por não contar nada e às tantas torna-se irritante. Tirando a utilização exagerada desta espécie de "bengala", gostei muito da escrita e as personagens estão bem construídas. É fácil criarmos empatia com elas. Senti verdadeiro asco por Rolindo, nada do que foi contado sobre a vida miserável que levava me leva a sentir alguma pena dele, só mesmo asco. 

Norberto Morais é para repetir e recomendo sem qualquer hesitação. Leiam que vale bem a pena. 

Boas leituras! 


Excerto (pág. 179)
"Agora às voltas na enxerga, batia-lhe a raiva em ondas revoltas contra o penhasco do peito. Tinha vontade de espernear, de gritar, de berrar, de esguichar, de se rasgar e sair de dentro de si. Sufocava. A imagem daquele sonho, daquela tarde, corroíam-lhe as entranhas com a violência de um ácido. Odiava-os! Odiava-os tanto! Em especial a ela. Tão recatadinha, tão acanhada, tão púdica... Estava confirmada a saúde, o brilho, a concretude dos gestos. Odiava-a! Odiava-a, odiava-a, odiava-a... Vadia! Fingida! Puta! Mais puta que a puta mestra de um vespeiro de putas! Ah, maldito fosse pela eternidade o Criador das mulheres! Tinha dores, Rolindo Face. Tinha dores. Sofria como um cão desdentado sobre uma montanha de ossos. Queria morrer, queria matar, queria nunca ter nascido; ter-se fingido de morto no dia em que veio à luz e arrefecer, arrefecer até gelar por completo, e apodrecer, como agora, naquela febre húmida e regélida que o queimava e desfazia de tão pantanosa e tão fria. Estragara tudo. Burra! Burra, burra, burra, rangia os dentes Rolindo Face. Odiava-a tanto! Tanto, tanto, tanto... Odiava-a tanto!
E ali, no canto escuro da cozinha - único canto permitido do mundo -, ali, onde a coragem se agigantava agora, que debaixo da estopa qualquer rato pelado é um colosso destemido; ali, onde não haveria de pregar olho até o Sol nascer, jurou a si mesmo que os haveria de matar."

setembro 01, 2017

[Kindle] A Cidade do Medo (Não Matarás vol.I) - Pedro Garcia Rosado


Título original: A Cidade do Medo - Não Matarás vol.I
Ano da edição original: 2010
Autor: Pedro Garcia Rosado
Editora:Edições ASA

"Para a Polícia, a morte violenta de um sem-abrigo cuja identidade é quase impossível de determinar não é uma ocorrência a que se possa dedicar muito tempo. Mas a situação altera-se na manhã seguinte: aparecem mortos, da mesma maneira, mais dois sem-abrigo na Baixa de Lisboa. E, dois dias depois, são três os sem-abrigo atacados. O serial killer começa, porém, a deixar pistas - e estas apontam para um culto satânico, mas também para a maçonaria. Com o medo a instalar-se em Lisboa, onde o assassino vai multiplicando os seus actos de violência, e enquanto Joel Franco começa a descobrir as origens desta vaga de crimes, o presidente da Câmara de Lisboa e um seu discreto aliado na própria PJ percebem quem é o autor das mortes: o homem que quiseram transformar em bode expiatório quando começou a correr mal o comércio ilícito de terrenos na zona do projectado aeroporto da Ota. No qual pontificara o presidente da Câmara quando ainda era ministro do Ambiente… E em breve vão estar frente a frente dois homens que, à sua maneira, procuram justiça: o assassino propriamente dito e Joel Franco, que tenta vingar a morte de um amigo de infância em cada homicida que persegue. É bem provável que ambos desafiem a antiquíssima norma que regula a sociedade humana: «Não matarás.»

«Não Matarás» é uma série de thrillers ambientados em Portugal e com personagens portuguesas. O seu protagonista é Joel Franco, inspector na Secção de Homicídios da Polícia Judiciária que, em todos os crimes que resolve, sabe estar a vingar uma morte a que assistiu na infância."

Depois de muito resistir eis que um ereader me entra pela porta a dentro... :) A resistência tinha muito a ver com o preço dos aparelhos, o preço incompreensível dos ebooks e a pouca variedade de livros em português. Acabei sempre por ir adiando a compra.
O dia acabou por chegar e, para estrear o meu Kindle, um autor português de quem tenho lido boas críticas e que tinha esta série Não Matarás a preços convidativos.
Depois de ultrapassadas as exasperantes dificuldades em tornar o epub compatível com o Kindle, preparei-me para estranhar a leitura. E afinal, não estranhei... assim tanto. Não acho que seja para todo o tipo de livros, mas a verdade é que a leitura é muito cómoda, consegue-se ler em qualquer lado e o dispositivo é leve e de fácil utilização. Do que é que senti falta? Da parte mais emocional que associo ao acto de ler, do toque do papel, do cheiro dos livros e de fechar e ter uma capa pela qual podemos passar a mão. Essas pequenas grandes coisas que facilitam uma espécie de ligação emocional com o livro, com a história e com as personagens. No entanto, gostei da experiência e não estou desiludida com a aquisição. Acho que vou usá-lo muito, mesmo tendo em conta as limitações que ainda existem ao nível do mercado de livros eletrónicos.
Mas falemos do livro porque estamos no Quero um Livro e não no Comprei um Kindle. E agora?!. :)

Já não sei muito bem como é que os livros de Pedro Garcia Rosado entraram no meu radar, mas ainda bem que entraram.
A Cidade do Medo inicia a trilogia Não Matarás, que inclui ainda Vermelho da Cor do Sangue e Triângulo.
A Cidade do Medo é um policial em português passado em Portugal e é bastante bom! E porque é que estou surpreendida? Bem de acordo com recente formação, todos nós somos enviesados e este era definitivamente um caso de enviesamento. Posso estar enganada, uma vez que o género não abunda nas minhas estantes, mas a verdade é que não abundam escritores portugueses de policiais. Não me recordo de alguma vez ter lido um livro do género de um escritor português.

Por se tratar de um policial, para os quais convém partir sem grande informação, tenho sempre algum receio de dizer demais e estragar as surpresas do livro, por isso não me vou alongar.  
A Cidade do Medo é uma história de corrupção, de alienamento social, de vingança e é, também um retrato interessante deste nosso país à beira mar plantado.
Não precisam de saber mais do que já é dito na sinopse e acho que basta dizer-vos que o livro está muito bem escrito, a história prende-nos, as personagens são interessantes e a leitura flui com muita naturalidade.

Recomendo sem quaisquer hesitações. E já tenho os outros dois livros que completam a trilogia na minha nova biblioteca digital. :)

Boas leituras!

Excerto:
"O colega mantém-se imóvel. Joel avança na sua direção. Vê-lhe os pés descalços, as calças do pijama de flanela, os braços estendidos e as mãos de dedos flectidos. E, depois, o rosto. Tem uma expressão de dor e os olhos estão abertos. Muito abertos. Cheira a urina. Da casa de banho ou do corpo de Augusto?
Joel sacode-o, mas o amigo não se mexe. Puxa-lhe por uma mão, mas ele não reage. E não respira. Joel empalidece. Até este momento foi poupado a um contacto directo com a morte. O pai morreu na guerra, mas o corpo ficou em África, desfeito. Augusto é o primeiro morto que vê. Joel aproxima-se mais, vence o medo e a repugnância e fixa o olhar nos olhos baços do amigo.
Todos os dias lhe dizem que a morte é uma passagem para um mundo melhor. Mas o rosto de Augusto não tem a expressão dos crentes."